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Casas Bahia, alta Selic e governança: o que o caso revela além dos juros?

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A alta Selic, o crédito mais caro, a pressão sobre o consumo, a restrição de fornecedores e a deterioração do ambiente financeiro são fatores frequentemente resgatados quando se analisa a crise recente da Casas Bahia.

Esses elementos ajudam a entender parte da pressão enfrentada pelo varejo, especialmente em negócios dependentes de capital de giro, financiamento da cadeia e recomposição constante de estoques. No entanto, quando uma companhia desse porte chega a uma Recuperação Judicial bilionária, a análise não pode se limitar ao cenário macroeconômico.

Por isso, discutir Casas Bahia e alta Selic é importante, mas insuficiente quando a análise ignora governança, incentivos e qualidade da geração de caixa.

Casas Bahia, alta Selic e varejo pressionado

Esses fatores certamente pressionaram o varejo, mas não explicam sozinhos como uma companhia desse porte chegou a uma Recuperação Judicial com R$ 17,3 bilhões em dívidas, após sucessivos processos de reestruturação.

Para mim, existe uma questão anterior: Governança Corporativa e responsabilidade do Conselho de Administração.

Em uma companhia aberta, o Conselho não existe apenas para homologar propostas da Diretoria. Sua função é justamente supervisionar a gestão, questionar decisões, avaliar riscos e, principalmente, preservar a sustentabilidade da empresa e os interesses dos acionistas no longo prazo.

Por isso, chama atenção a discussão sobre remuneração dos administradores.

Em 2022, foi aprovada remuneração global de até R$ 105 milhões para Diretoria e Conselho, 35% acima dos R$ 77,83 milhões acordados no exercício anterior, justamente quando a companhia já apresentava deterioração dos resultados.

Em 2025, já depois de todo o processo de reestruturação iniciado em 2023, voltou à pauta proposta de elevação da remuneração global da Administração, de aproximadamente R$ 53,2 milhões para R$ 68,85 milhões.

O problema não está na remuneração, mas nos incentivos

O problema, portanto, não está simplesmente em executivos serem bem remunerados. Executivos competentes devem ser bem remunerados.

A questão é outra:

Os incentivos estavam efetivamente alinhados à criação de valor econômico sustentável?

Geração de caixa, por exemplo, é um excelente indicador. Mas precisa ser analisada pela qualidade e recorrência desse caixa.

Uma empresa pode melhorar temporariamente seu fluxo de caixa reduzindo estoques, alongando fornecedores, diminuindo capital de giro ou postergando desembolsos. Isso produz liquidez no curto prazo, mas não necessariamente significa melhora estrutural do negócio.

E o episódio atual mostra exatamente a importância dessa distinção: a Casas Bahia passou a enfrentar dificuldades para recompor estoques diante das restrições de crédito; no segundo trimestre de 2026, seus estoques caíram mais de 20%, enquanto a empresa perdeu capacidade de financiamento junto à cadeia de fornecedores.

a Casas Bahia passou a enfrentar dificuldades para recompor estoques diante das restrições de crédito
A Casas Bahia passou a enfrentar dificuldades para recompor estoques diante das restrições de crédito

Quando a falta de crédito compromete a operação

No varejo, isso pode iniciar um ciclo extremamente perigoso:

menos crédito → menos estoque → menor disponibilidade de produtos → menor venda → menor geração operacional de caixa → maior percepção de risco → ainda menos crédito.

É nesse ponto que a discussão sobre Governança se torna central.

O Conselho de Administração deveria perguntar não apenas:

“Estamos gerando caixa?”

Mas:

“De onde está vindo esse caixa? É operacional e recorrente? Estamos preservando estoque, fornecedores, crédito e capacidade futura de venda?”

O mesmo rigor deveria existir para indicadores relacionados a provisões trabalhistas, créditos tributários, resultados trimestrais e quaisquer outras métricas utilizadas para remuneração variável.

Governança corporativa e riscos de curto prazo

Não significa afirmar que houve manipulação. Não há base para essa conclusão apenas a partir desses fatos.

Mas existe, sim, espaço legítimo para questionar se os mecanismos de remuneração, supervisão e gestão de riscos estavam adequadamente desenhados para impedir que resultados de curto prazo fossem premiados enquanto riscos estruturais continuavam crescendo.

A Recuperação Judicial talvez seja apenas o capítulo final de um problema muito mais antigo.

Porque empresas raramente entram em crise apenas quando acaba o dinheiro.

A crise começa muito antes, quando a Governança deixa de questionar decisões que melhoram indicadores no curto prazo, mas comprometem a capacidade da empresa de continuar criando valor no longo prazo.

E quando fornecedores, bancos e seguradoras deixam de confiar, o problema deixa de ser somente contábil ou financeiro.

Passa a ser um problema de continuidade do negócio.